Cachorros no combate a Depressão: conheça a história de Pretinho e Micheli

Cachorros no combate a Depressão: conheça a história de Pretinho e Micheli

novembro 11, 2019 1 Por BiaCalais
Pretinho e Micheli. Crédito: Micheli Catoia

Em Junho de 2017, Micheli Catoia passaria por uma completa ressignificação de sua vida. E ela nem imaginava o que ocasionaria tudo isso…

Em um casamento conturbado, Micheli se encontrava perdida em si mesma. Andava em caminhos rotineiros sem certeza sobre os rumos de sua vida. Até um som quebrar com o seu cotidiano: um choro vindo direto de um saco de lixo em movimento. 

Micheli parou o que estava fazendo e com a companhia da van de proteção ambiental que havia sido chamada, observou o menor e mais frágil serzinho que já vira sendo tirado o lixo. Um pequeno cachorrinho que parecia um pedaço de veludo preto. Sem pensar, refletir ou pedir opinião, Micheli instantaneamente disse ao pessoal do resgate que queria ficar com ele. “Aquilo partiu meu coração. Eu me sentia exatamente o que eu vi nele…jogada fora. Eu me sentia tão mal quanto…quis ele para mim”, relembra. 

Não se sabe o que estava no calendário de tarefas de Micheli aquele dia; Supermercado, feira, trabalho, ou exercício físico. Simplesmente não importa, do lixo ela tirou seu futuro companheiro, e para o lixo foram suas metas do dia, pois Micheli se dirigiu diretamente ao veterinário para começar a cuidar do seu pequeno. 


Pretinho ainda filhote. Crédito: Micheli Catoia

E pequeno não é apenas uma forma carinhosa de falar. Estava desnutrido e pesava apenas 450 gramas. A adotante conta sobre os primeiros contatos com os veterinários, tanto do grupo de proteção, quando a particular que Micheli contratou para dar continuidade ao tratamento. “Foi emocionante, a veterinária que recolheu ele deu um beijo nele, todo sujo, e falou ‘boa sorte’. Me entregou em uma caixinha de sapato que parecia gigantesca para ele”. 

E dentro de uma caixa de sapatos gigantesca, Pretinho, como logo foi batizado, viajou para as primeiras consultas, que mostraram uma situação ainda mais séria do que aparentava. Além de desnutrido, estava repleto de pulgas e carrapatos. Por conta do tempo de nascido e da fraqueza em que estava, não podia tomar vacinas e muito menos remédios fortes, que podiam o envenenar. “A veterinária falou para eu não me apegar e eu disse, ‘eu já tô apegada, conserta ele’”, conta. 

A partir desse primeiro dia, a única meta de Micheli era não deixar a luz da vida se apagar para Pretinho. Comprou todos os mantimentos de que ele necessitava e voltou para casa com uma força muito maior do que saiu. No primeiro banho, ela conta ter percebido mais ainda a gravidade da situação, “as pulgas corriam para minha mão, me fizeram uma luva preta. Eu não entendo como cabia tanta pulga em um serzinho tão pequeno”. 

E a hora do sono não foi mais tranquila. Mesmo com todas as cobertas e roupinhas, ele não conseguia se esquentar. Micheli conta que por cerca de 45 dias acordou de madrugada para ver como estava e o ajudar a esquentar o corpo. “Eu colocava uma garrafa pet com água quentinha perto do corpinho dele”. Mas os cuidados da madrugada não foram em vão, após esses 45 dias, a veterinária diagnosticou que ele estava fora de risco e já podia tomar as vacinas. 

Pretinho acordando Micheli de manhã. Crédito: Micheli Catoia

Um dia de vitória, mas não completa. No mesmo dia em que Pretinho ganhou a chance de viver, o marido de Micheli saiu de casa. De um casamento conturbado para uma separação. De um psicológico que já estava desconexo para uma queda total rumo a tristeza profunda. 

“Eu estava muito triste, absurdamente…então eu entrei em depressão pós trauma, era muito difícil para mim os dias que eu lembrava dele…”. Micheli revela que desenvolveu crises de pânico e não conseguia nem passear sozinha. Seu choro era constante e em meio às crises começou a perceber que Pretinho, já em segurança de saúde, começou a passar mal novamente. 

De volta ao veterinário, a adotante teve a surpresa de ouvir que o motivo do mal estar era ela mesma. Quando ele foi curado, a veterinária disse “A parte boa sobre cachorro é que quando ele percebe que tem dono, ele tem por que lutar”. E de repente, Pretinho estava inseguro com a desestabilidade de Micheli. “Quando eu chorava de tristeza por causa da depressão pós trauma, ele começava a vomitar”. Era uma gastrite nervosa que poderia atrapalhar todo o processo de luta contra a subnutrição que combatiam. 

“Fiz tudo isso para salvar ele, e vou matá-lo?”, pensou Micheli, criando uma força que nem sabia ser possível. “Para cachorros você não consegue mentir. Então o amor por ele me fez levantar”. E por cerca de 6 meses, viveram esse misto de luta e união. Micheli conta que não se deixava abater por mais de um dia. Se sua crise a colocava de cama, no dia seguinte ela tinha que estar de pé para mostrar resiliência à Pretinho. 


Micheli e Pretinho sempre juntos. Crédito: Micheli Catoia

E na volta a socialização, Pretinho fez um trabalho de mestre para sua dona. A adotante conta que não conseguia frequentar ambiente públicos sozinha, mas se fosse para comprar algo para seu companheiro, ficava tudo bem. Então foi assim que começou a sair, “Devagar, por conta dessas coisas, ele foi me tirando de casa e me fazendo levantar. E aí eu fui melhorando, fui saindo daquele mundo negro que eu estava”. Passeios no parque, nas praças, nos shoppings, pet shops. Sempre juntos, passo a passo. “Foi uma Pet terapia intensiva de 6 meses”. E o resultado? Micheli saiu da depressão pós trauma e Pretinho ficou mais forte do que nunca. 

Nesses seis meses, a vida realmente transbordou ressignificação. Micheli mudou sua visão sobre os animais e sobre sua própria pessoa. “Eu enxergo os cachorros de uma forma completamente diferente. Comecei a ler livros, pesquisar o melhor para eles, porque eu sei como eles podem tirar o sofrimento do ser humano”. Com toda essa sede por ajudar, criou o blog “Cachorro e você”e um canal para divulgar artigos e informações sobre a interação com o mundo animal. Carregada de coragem, a criação de um blog foi mais do que pode parecer. Além de utilidade pública, Micheli compartilha ali a segurança que ganhou após sua recuperação. 

Segurança para se expressar. E segurança para seguir a vida de uma forma muito mais feliz. 

Alguns meses após sua crise, uma nova pessoa entrou em sua vida. Uma que agora se encaixa com todos seus anseios e vontades. “A coisa mais maluca é que o Pretinho é um cachorrinho muito medroso, e quando ele viu meu atual marido ele correu como se fosse fazer a festa que faz para mim. Ele o adotou. Foi como se fosse o sinal: esse é o cara.”

Micheli namorou, noivou e casou novamente. “Eu brinco com meu esposo que em todo esse tempo, o Pretinho nunca me deixou com a cama vazia. A partir do momento que fiquei sozinha, ele veio me fazer companhia”.

Pretinho em sua cama. Crédito: Micheli Catoia

Mas Micheli não se sente mais sozinha. E não apenas por conta do novo casamento. Algo além aconteceu naquele dia frio de Junho, enquanto caminhava perdida com os rumos da vida. Na sacola de lixo, encontrou mais do que um cachorro. Encontrou uma bússola de amor que deu Norte à sua vida.