Vito e Carmela: a origem de um ponto fixo de adoção

Vito e Carmela: a origem de um ponto fixo de adoção

outubro 6, 2019 5 Por biacalais

Vito e Carmela. Dois buldogues ingleses. De raça, com pedigree, mas com certeza sem rivalidade com seus amigos vira-latas. Na verdade, protagonizam o maior apoio e ajuda que podem aos seus colegas. Vito e Carmela são a inspiração e a marca de um ponto fixo de adoção e mostram que entre raças definidas ou não, não deveria haver diferenciação. 


https://www.instagram.com/p/BuM6BIDnbZi/?igshid=1st0vi5ji9kx5


A Origem…

Tudo começou com Amanda Senna, dona de Vito e Carmela. Em 2017, a paulista abriu uma franquia internacional de Pet Shop na cidade de São Paulo. Um dos 5 pilares de funcionamento dessa rede era a venda de animais, e tudo bem até então. Acontece que com o decorrer dos meses, Amanda começou a perceber ações erradas nesse mercado de vendas. 

O comércio de animais não era legal. Por mais homologado que seja não tem a qualidade que deveria ter”, revela. Aos 2 meses de contrato, ela decidiu que não faria mais parte desse mercado e que não teria mais como sustentar esse pilar da franquia. 

Travou uma luta para romper o contrato, mas não desistiu em nenhum momento. Após se livrar do negócio que não batia com seus princípios, Amanda teve uma ideia que mudaria a sua vida e a de tantas famílias. “A gente manteve a mesma estrutura da venda de cachorros, mas optamos pela adoção”. Por trás dos vidros no pet shop, animais resgatados que precisam de acolhimento. 


Uma parte do espaço de adoções. À esquerda estava Bob, já a direita, Lilica e seus quatro filhotes; Bia, Charlotte, Bentinho e Capitu. Crédito: Beatriz Calais.

Amanda firmou parceria com ONGs e grupos de resgate, como a Ampara Animal e o Recanto Bicho Feliz, e manteve seu Pet Shop com um novo pilar: a adoção. 

Amanda reforça que não é contra a venda de animais de raça. Para ela, o maior problema são as irresponsabilidades que circulam no meio, que fazem com que o mercado se torne extremamente preocupante. Além disso, diz seus olhos se abriram quando desvendou um mundo com mais de 30 milhões de animais de rua, e o quanto de oportunidade esses seres precisam para sair dessa situação. 

Aí entra a influência de seus buldogues. Com a quebra do contrato, Amanda precisava de um novo nome para o ponto, e por que não “Vito e Carmela”, seus tão amados filhos de quatro patas? “Apesar de termos cães de raça, é uma forma de ajudarmos”. 

Fachada do Pet Shop. Crédito: Beatriz Calais (detalhe para o cachorrinho Rubens na porta)


Um aliado internético

E assim o nome foi crescendo cada vez mais, principalmente nas redes sociais e mais especificamente no Instagram. A página de 28 mil seguidores possui espectadores assíduos. Pessoas que se preocupam com o destino dos animais, divulgam e apoiam a cada conquista. 

E esse sucesso todo não se deu na sorte. O ponto fixo utiliza o Instagram da forma menos superficial possível. “No começo usávamos as redes sociais como comercial para loja. Hoje é para adoção, essa é a prioridade”. E que prioridade. Pelas legendas, mostram a personalidade do animal, fazendo com que ele não seja mais um entre tantos. Mas sim o Bob, de 3 anos, muito dócil e carinhoso, por exemplo. A maioria dos nomes eles mesmo dão no ponto de adoção. Nomes criativos e que revelam um pouco sobre a personalidade de cada serzinho. 


Bob quando ainda estava no ponto de adoção. Felizmente ele já foi adotado. Crédito: Beatriz Calais

“É uma coisa que fizemos desde o começo, contando a história do animal. As pessoas foram gostando e virou uma ‘marca’ nossa”.  São legendas que aproximam, e não para por aí. Além da apresentação personalizada dos resgatados, eles os mostram com sua nova família após serem adotados, o que gera um enorme engajamento e animação do público. 

“Quando começamos a postar os animais para adoção as pessoas começaram a participar e gostar muito. As pessoas torcem. É bom elas saberem o que aconteceu com eles”, revela. E assim mantém uma forte rede de apoio, em que energias boas circulam e divulgações ajudam a chegar em um ótimo índice de adoções. Ao todo, já realizaram a adoção de mais de 300 animais. 

Mas como todo esse sistema funciona?

De 300 em 300, é possível mudar a vida de muitos. Mas não de todos, e por isso não é difícil imaginar que com um número tão grande de animais precisando de ajuda no país, seja preciso se organizar para não perder o controle. Para isso, Amanda conta como funciona a parceria com as Ongs e a disposição do ponto de adoção. 

“Todos os dias recebemos muitos pedidos de ajuda”, diz a dona do pet shop. Porém, há uma limitação nos custos do local, o que faz com que o resgate feito por eles mesmos sejam muito mais complexos do que parecem. Acontece que por lei todos os animais precisam estar castrados para serem doados. E sem a ajuda das Ongs, que conseguem a castração pelo CCZ (Centro de Controle Zoonoses), o pet shop não conseguiria cobrir o custo de tantas cirurgias para poder repassar para os adotantes.  

Assim, Amanda explica que possui suas ONGs cadastradas e recebe os animais por semana com hora marcada, já castrados e vacinados. E quanto às denúncias que recebe, tenta ajudar entrando em contato com os grupos de resgate que conhece, divulgando o ocorrido para que o animal possa ser ajudado. 

Outra organização do local é quanto ao espaço alocado para os animais. Há um número certo de cachorros e gatos que podem ficar no ponto de adoção. “Para cachorros, temos uma limitação de máximo 12, mas gosto de deixar um pouco menos para não ficar apertado”. É uma preocupação de saúde. Amanda conta que eles ficam no ponto de adoção por 3 semanas. Em todo esse tempo, eles precisam do maior conforto possível para não se estressarem. 


Nessa parte havia 5 animais pois eram uma família. Lilica (a mãe, de bandana rosa), e seus filhotes; Charlotte, Bia, Bentinho e Capitu. . Crédito: Beatriz Calais

E é exatamente por isso que não ficam mais do que 3 semanas. Após esse prazo, podem começar a se incomodar com o local, então voltam para suas Ongs originárias. Amanda conta que esse é não o fim de suas oportunidades de adoção. Depois de algumas semanas eles podem até voltar para o pet shop e ficar mais um tempo, além disso, eles continuam divulgando, o que muitas vezes já deu resultado positivo. 

Em um caso recente, Titi, um cachorrinho de 4 meses, não conseguiu uma família nas 3 semanas que ficou no ponto de adoção. Mas após voltar para ONG, com contínuas divulgações, entraram em contato dizendo que queriam o adotar. Titi voltou para o Vito e Carmela pela última vez, seu próximo passeio de carro foi direto para o seu tão esperado lar doce lar. 


A tristeza para muitos é quando esse lar doce lar não dura por muito tempo. As devoluções dos animais costumam desagradar fortemente os seguidores da página, mas Amanda diz que é uma coisa difícil de impedir. Para ela, o pior é abandonarem novamente ou doarem para terceiros, por isso, coloca essa cláusula no contrato de adoção. Em caso de devolução, o animal deve voltar para o ponto fixo. 

Além disso, há uma outra ação que acabou diminuindo o índice de devolução: a taxa de adoção de 150 reais. “Muita gente não entende a taxa de adoção, mas ela é muito importante e eu não abro mão de jeito nenhum”, revela Amanda. Ela explica que a taxa é para manter a estrutura de quando vendiam os animais; transporte, banho e tosa, remédios, limpeza, e necessidades básicas. E adiciona: “Os 150, além de ajudar no projeto, evita a adoção por impulso. No comecinho a gente não cobrava, e a devolução diminuiu muito desde que começamos a cobrar”

Mas para incentivar a adoção, Amanda conta que oferece um desconto vitalício de 10% para os adotantes. 

Nesse tempo de funcionamento, além das 300 adoções, o Pet Shop propiciou uma mudança na vida de Amanda. Com lágrima nos olhos, ela conta de casos que a tocaram profundamente, como a da cachorrinha Bia, que além de ser de porte grande, tinha um tumor. “Achava que seria muito difícil encontrar um adotante. Mas a Bia era super carinhosa…um dia uma pessoa veio aqui e se apaixonou por ela, também chamava Bia. A Bia com a Bia. Foi muito lindo”.

O carinho mútuo

Realmente é difícil não se aproximar das histórias e Amanda conta que isso é uma grande dificuldade para ela. O apego chega com o abanar de rabos repleto de agradecimentos, com o toque gelado do focinho e com uma lambida surpresa. O apego chega e não vai embora, e Amanda diz já ter sofrido muito com isso. “Hoje em dia eu até vou muito menos no canil. Já aconteceu de eles serem adotados e eu passar dias chorando de saudade”

Bia e Charlotte. Crédito: Beatriz Calais

Uma saudade repleta de felicidade por terem encontrado um lar, mas que ainda assim cria um vazio no peito. “Sempre soltamos eles na loja, e alguns grudam na gente. São tão queridos”. Queridos e gratos. Em alguns dias ou semanas no Vito e Carmela, recebem todo amor de Amanda Senna e do funcionário Luan Lucas. Mais do que água e comida, ganham colo e carinho. Assim como Amanda, disso nunca esquecem. 

Bob, Titi, Bia, Capitu, Bentinho, Laurinha, Charlotte, Lilica, e tantos outros. Seja qual for seus nomes agora, terão para sempre seu primeiro nome de batismo tatuado em suas memórias.

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Serviço: 

Rua Fidalga, 417 – Vila Madalena. São Paulo 

Segunda a Sexta, das 8h30 às 20h/ Sáb 9h às 18h

Capitu e Bentinho. Crédito: Beatriz Calais