“Enche o tanque com amor, por favor”: O relato de Mingau, o cão frentista

“Enche o tanque com amor, por favor”: O relato de Mingau, o cão frentista

setembro 22, 2019 9 Por biacalais
Tatiane e Mingau. Crédito: Beatriz Calais

Não se sabe o dia exato, mas há cerca de 1 ano e três meses atrás, um serzinho em alta velocidade adentrou o posto de gasolina Shell da Ponte Grande, em Mogi das Cruzes. Não era um carro, uma moto, e tampouco uma bicicleta. Era um cachorrinho magro e machucado, que encontrou nas luzes do posto um sinal de conforto e possível acolhimento. 

Era todo preto e ainda filhote. Os funcionários do posto o acomodaram na parte coberta, onde trocam o óleo. Montaram uma caminha de papelão, compraram ração e cuidaram de seus machucados. Mais do que um acolhimento de teto e alimento, ele encontrou quem abraçasse seus anseios por carinho e cuidados. 

Os funcionários não sabiam de nada, mas o plano já tinha sido feito. Ficaria ali e de lá não sairia mais (só para dar uns passeios, talvez, mas isso é assunto para daqui a pouco). Ração vai, ração vem, começou a crescer cada vez mais, e junto com seu tamanho, crescia o apego mútuo com as pessoas a sua volta. 


Mingau em sono profundo na sua caminha. Crédito: Beatriz Calais

Estava feito,tinha encontrado um lar. Ganhou uma casinha e um nome: Mingau. O porquê desse nome é um mistério, diferente do amor que todos sentem por ele. 

Tatiane Santos, funcionária do posto Shell,  conta que tudo mudou após a chegada de Mingau. “O bom dia é primeiro para ele, depois para as pessoas”. Virou xodó de todos; toma café da manhã com o patrão, acompanha os abastecimentos e é completamente grudado em Tatiane. 

Mingau com Tatiane e Will Santos. Crédito: Tatiane Santos

Não é apenas com seus “colegas de trabalho” que esbanja simpatia e companheirismo. Mingau também faz amizade com os clientes do posto, que já sabem até seus gostos e brincadeiras favoritas. Tatiane conta que há um cliente que sabe bem do gosto de Mingau por garrafas. Ah, as garrafas. Amassa, joga a tampa fora, corre atrás…é um perfeito parque de diversões. E sabendo disso, todos os dias que passa por lá, ele leva uma garrafa para Mingau. Abre a porta do carro e deixa que ele entre para buscar sua companheira de diversões do dia. 


Tatiane brincando com Mingau. Credito: Beatriz Calais

“Esse cachorro…todo mundo gosta dele”, diz Tatiane. Talvez por conta disso Mingau tenha passado por uma fase muito trabalhosa para seus donos. Simplesmente fugia. Saia para dar um passeio, socializar, namorar, seguir pessoas e carros e deixava Tatiane doida procurando por ele. Chegou a caminhar até bairros distantes, ou pior, até o Pico do Urubu (um pico de grande altitude em Mogi das Cruzes). Mas chegou um momento, em que seus passeios passaram dos limites: Mingau foi atropelado. 

Na frente do posto onde morava, em um momento de pura alegria por rever Tatiane, Mingau entrou na frente de um carro. O acidente não lhe causou danos extremos, mas precisou de curativos, remédios, cuidado veterinário e uma mudança de vida. A castração virou uma necessidade imediata. Além dos muitos bens que proporciona para saúde do animal e para sociedade (falei um pouco mais sobre isso no post “O que está por trás dos 30 milhões de animais abandonados no Brasil?”), o procedimento ajuda a mantê-los mais calmos, sem que queiram sair para namorar. 

A castração foi feita rapidamente e Mingau nunca mais quis sair de onde vive.  “Depois que castrou, ele sossegou. Fica só aqui com a gente”, revela. ‘Com a gente’, mas com muito foco na própria Tatiane. O afeto entre eles é forte. Ela conta que os dias em que precisa trabalhar na loja de conveniência são conhecidos como “o dia triste do Mingau”, pois nesses momentos não conseguem ficar juntos o dia inteiro. Mas mesmo assim, ele fica na porta da loja o dia inteiro, esperando a hora em que ela fica sem clientes e sai um pouquinho para lhe dar carinho e brincar. 

Esse não é o único momento em que Mingau mostra o quanto ama Tatiane. Quando ela vai na padaria ou no supermercado, ele senta e fica esperando pela sua volta. E que sorte a do Mingau, o amor é recíproco. Tatiane já deixou bem avisado, em alto e bom tom, “Se eu for embora daqui, levo ele comigo”. 


Mingau esperando Tatiane voltar. Crédito: Will Santos (irmão de Tatiane)

Enquanto isso, “trabalham” juntos no posto, embora Tatiane tenha uma história curiosa sobre a tentativa de tornar Mingau em um visível funcionário. Mostrando que ele sabe seguir o comando de sentar, ela revela que a obediência não é sempre assim. Para criar sua imagem de integrante do local, já tentou colocar crachá, boné e até uma roupinha vermelha na época do frio, para remeter ao uniforme do posto, mas quem disse que ele aguenta qualquer um dos adereços? Mingau rasga tudo e saí andando com seu corpinho livre. 

Sentar tudo bem, mas usar boné não é com ele. Bem, suas ações falam mais do que qualquer cor ou símbolo que represente o posto de gasolina. Já é mais do que provado o quanto sua presença ali o torna parte fundamental e integrante do funcionamento do local. 


Mingau como um frentista nato. Crédito: Tatiane Santos

Mingau toma banho toda semana, tem vacinas em dia, cama quentinha, comida na mesa e até ar condicionado no escritório do patrão quando está muito quente. Ganha petiscos, carinho e brinquedos. Uma vida de mordomia, mas que não é vivida sem entregar nada em troca. 

“Tudo mudou depois que ele apareceu. Até a hora…a hora passa”, revela Tatiane. Ele é alegria e parece ter encontrado, ironicamente, o melhor lugar para si. Em um posto de gasolina, Mingau abastece com felicidade a vida das pessoas a sua volta. Quer funcionário melhor do que esse?


Foto de abertura. Crédito: Beatriz Calais