De pernas para o ar: o relato de José Bananinha

De pernas para o ar: o relato de José Bananinha

agosto 26, 2019 2 Por biacalais
Foto por Juliana Machado

Apontando o céu com as patas traseiras. Era assim que andava. Em um complexo desajuste com o horizontal comum dos colegas de quatro patas, ele andava na vertical. E como se não bastasse, o complexo desajuste não igualava seu andar ao dos humanos, ficava com a cabeça para baixo, como se estivesse plantando bananeira. 

José Bananinha chamou a atenção dos céus e fez com o destino o levasse para os braços de Juliana Machado Bertolini. Mas nem tudo foi tão simples e rápido quanto pode parecer. 

José morava em um sítio no interior de Minas Gerais, sua família era humilde e não tinha muito acesso a informações sobre cuidados veterinários. José basicamente era uma alma livre, e embora isso possa parecer o sonho de muitos cachorros, também não tinha vacinas em dia ou acompanhamento médico. Não se sabe o que aconteceu com ele. Se foi uma doença ou um acidente. Apenas que em um dia qualquer, José apareceu andando com as pernas para o ar. 


E com as pernas para o ar continuou, sem que procurassem causa e solução. Sua vida no interior de Minas de alguma forma viajaria até São Paulo para cruzar a de Juliana. 

A paulista já tinha dois cachorros adotados do Instituto Luisa Mell, Theo e Joaquim, sendo Joaquim um cãozinho com deficiência visual. Além disso, já tinha duas estrelinhas em seu coração, Nina e Mocinha. Mocinha, uma cachorrinha resgatada com problemas na perna, havia acabado de lhe ensinar muito sobre a vida e o cuidado. Viveu seu último ano sem conseguir andar, dependendo cada vez mais de sua dona e a aproximando do mundo de animais com deficiência. 


Theo e Joaquim, foto por Juliana Machado

Juliana queria dar o melhor tratamento que podia a Mocinha e entrou em contato com pessoas que já havia conhecido pelo Instituto Luisa Mell. Foi aí que foi colocada no grupo “amigos de rodinhas” (grupo em que Camila, dona do JosésendoJosé, também participa, veja os últimos posts sobre o assunto). Foi como o portal de um novo mundo para Juliana. Sabedoria, informação, empatia e apoio. Tudo em um grupo só. Mas foi a partir da inspiração que se formou um laço essencial para sua jornada. 

Conheceu a história da Olivia Golden Especial e de sua dona Mariana, também participante do grupo. Olívia é uma Golden Retriever cadeirante que possui quase 60 mil seguidores no Instagram. É um cachorro de grande porte, e seus donos mostram como há vontade de viver em um animal com deficiência. “Quando eu vi a Olivia foi uma inspiração para mim. A forma como ela vive bem e feliz…”, relata Juliana. 

“Quando a Mocinha começou a não se sustentar…a maioria dos veterinários partia para a eutanásia. E eu pensava; não posso fazer isso, ela ta viva, só não tá andando”. Juliana acolheu Mocinha, a carregou no colo, ajudou a fazer as necessidades básicas quando isso começou a ser um desafio e aprendeu a se doar por inteiro. Sua batalha foi aprendizado, que mesmo após a Mocinha partir, continuou intrínseco em seu ser. 

Continuou em contato com essa rede de apoio que a havia acolhido, e não foi por acaso.

Uma ligação interurbana. Telefone sem fio entre estranhos. Um conhecido da família de José; que conhecia a história de Olívia e Mariana; entrou em contato e fez com que Mariana colocasse o telefone no gancho, o pé no acelerador e fosse até Minas ver essa história de perto.

UFA! Que doidera em José? Mariana viajou até lá porque embora o “amigos de rodinhas” arrume cadeiras de rodas para cachorros necessitados, é preciso ter uma avaliação sobre o estado e a condição do animal. Nem todos conseguem se adaptar a cadeira. E era exatamente esse o caso. Ao chegar no sítio, Mariana se deparou com a descrição já citada: José em posição de bananeira constante. 

A família pedia dinheiro para comprar a cadeira e ao entenderem que isso não seria possível, deixaram que levassem José, sem demora, briga ou confusão. Mariana simplesmente o pegou no colo e foi embora. 

E foi nesse ponto que vidas tão importantes foram cruzadas. Com José no colo e a apenas alguns quilômetros de distância do simples sítio, Mariana decidiu ligar para Juliana e colocar José em sua vida.


Foto por Juliana Machado

Ele ainda passou alguns dias em Minas Gerais, na casa de uma outra colega do grupo, Francine, e foi ali que recebeu os primeiros cuidados, atendimento médico e colocou as vacinas em dia. E estava pronto. Estava pronto para mudar de estado, de casa, de família e de vida. 

Na realidade, a vida de todos estava para mudar. Juliana já sabia como José andava, e mesmo antes dele chegar em casa, começou a entrar em contato com veterinários para saber sobre tratamentos e os próximos passos a serem tomados. 

Cuidar de um animal com deficiência requer disponibilidade, tanto de tempo quanto financeira. Juliana relata ter se preocupado com essa questão e por isso começou a divulgar a história de José nas redes sociais bem cedo. Ela revela que seu contato com as redes era limitado, não tinha conta no Instagram nem para si, e agora administra uma conta com mais de 3 mil seguidores para José

Uma rede de apoio nova, mais uma porta aberta para o desconhecido, que a acolheu e abraçou. Em sua primeira divulgação, conseguiu arrecadar o valor do primeiro mês de tratamento de José. Hoje em dia, com mais seguidores assíduos, pensa em começar a vender rifas e já arrecada dinheiro com patrocínio. Além disso, conta casos de seguidoras que doam sessões de fisioterapia e pacotes de banho mensais. “Tudo isso é pouquinho, nenhum me dá um volume de dinheiro, mas ele acaba se pagando”, revela. 

A questão é que o gasto não é pouco. Uma das primeiras coisas que José fez ao chegar em São Paulo foi começar a fazer reabilitação. Todo esse tratamento custa caro, tirando o valor dos remédios que eventualmente podem aparecer. Juliana conta que gasta uma média de 800 a 900 reais mensais com o tratamento, sendo assim, cada ajuda é extremamente valiosa. 

Assim como os resultados desse cuidado. José faz fisioterapia cerca de duas vezes por semana e nesses mais de três meses já mostra notável evolução. “Ele já consegue colocar a patinha no chão. Meses atrás andava completamente na vertical”, conta Juliana. Ela ainda revela que em lugares estranhos ele tem o costume de empinar, como se fosse um instinto de proteção. Mas é só se acostumar com o local que a patinha já alcança o chão novamente. 


Mais do que o tratamento médico, José recebe um cuidado de alma. Juliana passeia com José, Théo e Joaquim duas vezes ao dia, e não nega que a maior paixão de José (além de brincar com seus irmãos) é passear: “Você abre a porta de casa e ele já está pronto para sair”. E sai de forma independente. Não usa guia e tem a maior responsabilidade ao andar sempre ao lado de seus irmãos. 


Foto por Juliana Machado

Independência parece ser uma palavra forte de sua personalidade. Embora seja um perfeito “cão de colo”, José simplesmente odeia que tentem o pegar. E não simplesmente odeia: grita. Juliana conta dos escândalos que já ouviu por simplesmente o pegar no colo. 

Bem, melhor não mexermos com a independência de José.

José Bananinha foi acolhido, mas também acolhe. Juliana revela que em meio aos tratamentos, olha para José e diz: “Você vai conseguir”. E em certo momento, percebeu que no fundo era isso que queria ouvir em sua vida. “Quando eu digo que ele vai conseguir, que vai colocar a pata no chão e andar com firmeza, às vezes é tudo o que eu preciso ouvir pros meus objetivos pessoais”

E assim enxerga a adoção: “É algo engraçado, você não escolhe, parece que surge na sua vida. Eu não sai da minha casa num belo dia e disse “vou adotar um cachorro”. Eles cruzaram a minha vida. E cada um tem um pouco do meu reflexo, eu consigo me enxergar neles”. 

Adoção é assim. Quando a vida estava de pernas para o ar, um José de pernas literalmente apontadas para o céu mostrou que as coisas não ficam de ponta cabeça para sempre. Uma hora você volta a sentir o apoio do chão.

Foto por Juliana Machado