E agora, José? – o relato de um cãozinho paraplégico

E agora, José? – o relato de um cãozinho paraplégico

maio 12, 2019 18 Por biacalais

Depois daquela corrida nada seria o mesmo. O céu de Petrópolis continuaria cheio de neblina e os carros continuariam passando com as costas arqueadas e os olhos cerrados dos motoristas que esperam enxergar a pista. Mas para José e Camila, nada seria o mesmo.

Camila Pinotti estudava medicina e estava saindo do plantão junto com uma amiga em Junho de 2016. Em meio ao turvo que percorria a serra de Petrópolis, avistou dois cachorros correndo em direção a pista, para frente do carro em que estava. Tudo rápido demais. Uma freada brusca, um desvio dado pelo carro de trás e o consequente atropelamento de um dos cachorros, José, abandonado sem socorro pelo carro que o atropelou.

E agora, José? Bem…o seu “agora” foi Camila.

A estudante o levou para um Hospital Veterinário 24 horas. Os primeiros exames já trouxeram um diagnóstico preciso: José havia perdido a sensibilidade nas patas de trás, estava paraplégico. Sua medula foi seccionada. Não poderia mais andar e sua bexiga não funcionaria mais sozinha, necessitando de compressão vesical para fazer xixi.

Não havia cirurgia que revertesse isso, mas sim uma capaz de trazer qualidade de vida. Sem ela, sua coluna ficaria instável, causando grandes dores e o impedindo até de se arrastar. Então Camila começou a se empenhar em arrecadar dinheiro para o processo cirúrgico, que custava quatro mil reais. Divulgou no Facebook, fez páginas de vakinha online e criou o Instagram José sendo José, para contar sua história. Usou o melhor da internet e conseguiu cerca de três mil reais em quatro dias de campanha, quantia aceita pelo veterinário para realizar a cirurgia.


José sendo José, bem blogueiro (Crédito: Camila Pinotti)

José foi uma luz trazida da neblina para vida de Camila. Uma luz surpresa, que não veio no melhor momento, mas mostrou que o destino não tem agenda nem hora marcada. “Eu não tinha condições nenhuma de ficar com ele…se eu visse no facebook alguém doando um cachorro nas condições dele, eu diria que para mim seria impossível, que eu não ia conseguir”.

Fazia medicina em período integral, além de cumprir seus plantões. Tudo isso precisava ser revezado com as três compressões vesicais que o José necessita por dia para que consiga fazer xixi. Com ajuda de amigos do curso, conseguiram viver mais de um ano em Petrópolis. No final de 2017, Camila voltou para casa com um diploma e um amor em forma de vida.

Catanduva é um lugar sem neblina, mas trouxe um paradoxo para vida de José: sua maior alegria tem uma certa limitação. Em Petrópolis, eles viviam em um apartamento, de piso liso e estável. Já em Catanduva, o quintal é a imagem do paraíso para José; grande, cheio de galinhas e da presença de seus irmãos; Nicole, Chiquinha, Nicolas, Maria Flor e a gata Nina.

José com seus irmãos: Nicolas e Chiquinha no banco e Maria Flor e José no chão (da esquerda para direita) – (Crédito: Camila Pinotti)

Correr pelo quintal é sua maior fonte de sorrisos, e não pense que suas patas o impedem disso. A questão é que José corre tão rápido que o piso instável machuca suas patas, necessitando de uma tala para não se ralar. “Ele corre muito com os irmãos…corre até mais…pegou muita força nas patas dianteiras, sai correndo com tudo, passa os irmãos…ele é muito forte”.

Camila contribui com essa sua força. José faz diversos tratamentos para melhorar o tônus, evitar hipertonia, melhorar seus reflexos e não ter perda muscular ou de massa. Além disso, tem a chance de desenvolver o andar medular, então faz acupuntura, fisioterapia, ozonioterapia, laserterapia, eletroacupuntura e hemoterapia, além de exercícios de movimentação ministrados por Camila antes de dormir.

José fortificando as patas na fisioterapia (Crédito: Camila Pinotti)

Um cuidado que faz com seja possível correr atrás das galinhas e passear. E que grande passeador José é. A placa de sua cadeira de rodas leva seu nome para os quatro cantos. Suas rodinhas colecionam areia, gramíneas e histórias. É uma grande amiga para passeios, mas só pode ser usada por cerca de duas horas, com intervalos para descanso, já que não é possível sentar ou deitar com ela.

Passeio na praia (Crédito: Camila Pinotti)
Crédito: Camila Pinotti

José é especial, e sua relação com Camila exige essa característica também. Não são simplesmente dono e cachorro. Precisam estar sempre juntos, seja para conseguir fazer a bexiga funcionar ou para brincar no quintal. É uma relação de dependência em seu mais puro bom sentido. José depende de Camila para muitas coisas, mas quem diria que ela  também seria dependente de seu carinho.

E agora, José? Nada mais foi o mesmo, mas o amor que ganhou continuará sendo.

A felicidade tem face (Crédito: Camila Pinotti)